De corpo e alma: duas histórias de prostituição

De corpo e alma: duas histórias de prostituição

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Sobre a sua escolha de vida, Bruno afirma: “Não me orgulho da minha escolha, mas também não tenho vergonha!” (Foto Andrea Camilo D.R.)

Bruno e “Bruna” são trabalhadores sexuais. Fétiches, vícios e histórias de violência são alguns dos episódios que marcaram a vida dos dois.

Foi num apartamento de rés-do-chão, simples, desprovido de luxos, que o POSTAL acompanhou uma visita do projeto As Madalenas e conheceu Bruno. Tem 52 anos. Aos 16 anos perdeu o pai e, aos 27, a mãe. A sua vida foi marcada pela descoberta da sua homossexualidade, aos 17 anos, tendo tentado esconder a sua orientação sexual, mantendo relacionamentos com mulheres.

Veio do Brasil, em 2001, à procura de uma vida melhor, de estabilidade financeira e de uma carreira como modelo. Para trás deixou 15 irmãos e a promessa feita à mãe, no leito da sua morte, de que cuidaria das suas irmãs. Ao chegar a Portugal, Bruno foi “enganado com propostas de trabalho que não existiam” e, confessa, que sentiu “frio pela primeira vez”.

Foi através do desespero que Bruno teve o primeiro contacto com o mundo da prostituição. Era Janeiro, estava frio, e Bruno era “leigo no que dizia respeito à prostituição”. Foi num bar, em Albufeira, que surgiu a primeira proposta. Na altura com 34 anos, o jovem foi abordado pelo barman do espaço noturno. “Dois ingleses interessaram-se por mim e fizeram-me uma proposta: o casal iria pagar-me 300 dólares (cerca de 270 euros) para tomar banho, num chuveiro, em frente ao casal que teria relações sexuais a ver-me nu”, explica ao POSTAL. Este foi um convite isolado que Bruno aceitou para pagar as despesas que tinha deixado no Brasil. O jovem passou mal depois deste encontro, o choque térmico depois de sair do hotel levou-o a cair no chão, sendo ajudado por um taxista.

Bruno arranjou trabalho numa casa que acabou fechada pela PJ

Pouco depois, Bruno conseguiu arranjar trabalho como “amo de companhia de uma senhora de 65 anos”. Nas suas tarefas diárias tinha “de a levar onde ela queria, cozinhar, limpar e partilhar a casa com a patroa que não me deixava dormir. Ela dizia que eu era pago para fazer companhia e não para dormir”. Bruno trabalhou com esta senhora durante seis meses até descobrir a sua verdadeira atividade. A senhora era Madame de uma vivenda, em Coimbra, onde trabalhavam 22 mulheres de diversas nacionalidades. Ao fim de cerca de dois anos, a Polícia Judiciária fechou a casa e Bruno foi trabalhar como segurança noturno de um parque de diversões.

Foi neste local que Bruno conheceu a senhora que viria a ser a sua próxima empregadora. Uma senhora bem vestida, num jipe novo, que lhe apresentou uma proposta: ela pagar-lhe-ia 1500 euros para cuidar e gerir a casa, onde viviam e trabalhavam cinco mulheres. O trabalho não deu certo “porque ela se apaixonou por mim e eu sou homossexual, não conseguia estar com ela dessa forma”, Bruno veio embora e as mulheres que lá trabalhavam vieram consigo. Alugaram um apartamento e, tanto as raparigas como Bruno, começaram a trabalhar a partir daí.

Bruno revela que, atualmente, já não tem necessidade de aceitar todo o tipo de trabalhos, como fazia no início em que “tinha que atender todo o tipo de pessoas, algumas delas em más condições, com maus cheiros e mau aspeto, tudo pelo dinheiro”. Os seus clientes atuais são fixos, “estão selecionados e só trabalho com esses. O resto do meu rendimento vem de alugar as casas que fui comprando”, diz Bruno ao POSTAL.

Ao longo dos anos, o jovem brasileiro, que aterrou em Portugal cheio de sonhos, foi perdendo a inocência

Conheceu muita gente, foram muitos os fetiches que realizou e as propostas que lhe foram feitas e que, muitas vezes, lhe “embrulhavam o estômago”. Para atender um cliente, o mínimo que Bruno pede são 30 euros, mas “para realizar este tipo de fantasias mais elaboradas, há clientes que deixam aqui 500 ou 600 euros e o máximo que um cliente já me deu foram 5000 euros”.

Bruno explica que “a prostituição é muito porca, mas é pelo lado de quem a procura. E, muitas vezes, o perigo desta atividade é também o cliente. Já tive de chamar a polícia. Mesmo quando estava ilegal, nunca tive medo de os chamar”. Atualmente, dois dos irmãos de Bruno estão a residir em Portugal, mas “a minha família não sabe que me prostituo. Sabem que alugo espaços para outras pessoas o fazerem. Mas nunca tive coragem para contar às minhas irmãs”.

Quando lhe perguntam o que sente em relação à vida que escolheu, Bruno é muito assertivo: “Eu não me orgulho daquilo que faço, não quero trazer ninguém para esta vida. Ajudo quem já está dentro da prostituição, mas não ajudo ninguém a entrar. Ao longo destes anos nunca bebi álcool, nunca usei drogas e nunca fumei. Nunca quis ter vícios para conseguir juntar dinheiro e ajudar as minhas irmãs. Não me orgulho da minha escolha, mas também não tenho vergonha! Fiz muito, organizei a minha vida e ajudei todas as minhas irmãs!”.

Também “Bruna”, de 45 anos, tem uma história de vida longa. Aos 13 anos fugiu de casa, no Brasil. As divergências com a família levaram-na a viver na rua com mais 5 raparigas. Com 15 anos teve, de forma ingénua, o primeiro contacto com a prostituição. “Um senhor rico, bem vestido, deu-me boleia, a mim e a uma amiga, e convidou-nos para nos encontrarmos mais tarde. A minha amiga, que era mais velha que eu, aceitou e fomos. Quando chegámos lá ela disse-me para ir primeiro, que a primeira vez é mais rápida. Eu não entendi, mas fui”, conta “Bruna” ao POSTAL, acrescentando que “no fim custou-me muito, a minha amiga chorou, ele foi bruto com ela, e foi bastante doloroso para nós. Quando íamos embora ele deu-nos bastante dinheiro”.

Mais tarde, com 18 anos, conheceu o pai da sua filha, mas a relação não resultou e “Bruna” saiu de casa com a menina. Com o tempo, as dificuldades para pagar a renda aumentaram e um amigo da jovem convidou-a para “trabalhar à noite, em clubes”, conta ao POSTAL. Foi na noite que “Bruna” conheceu a sua maior inimiga: a droga. “Percebi que a minha vida não estava a andar para a frente, a droga só me levava a dar passos atrás. O dinheiro que ganhava mal dava para pagar as minhas despesas e sustentar o meu vício”, explica ao POSTAL.

A proposta para mudar de país surgiu de uma antiga professora da jovem

O trabalho era “vir para Lisboa e trabalhar num clube noturno. Eu só tinha de pagar o meu voo até Portugal e, ao chegar aí, tinha casa e trabalho à minha espera”, diz “Bruna”, que aceitou a proposta para tentar mudar de vida e largar a droga.

“Vim para Portugal, deixei a minha filha com a madrinha dela e vim trabalhar. Em abril de 1994, comecei a trabalhar no clube das 22 horas às 5 da manhã, ganhávamos na altura o equivalente a 200 euros (cerca de 40 contos), o que era muito bom. Nós fazíamos dois clientes e íamos para a discoteca, tínhamos uma vida boa”, explica “Bruna” ao POSTAL.

Era muito jovem quando entrou no mundo da prostituição, “era ingénua, bobinha, não tinha essa malandragem da noite e sabia pouco da vida”, desabafa. “Bruna” confessa que sempre teve “relações duradouras. Conheci um homem mais velho que eu e, ao fim de três meses, soube que ele era chulo, mas continuámos juntos. Com ele a minha vida era passada entre Portugal e Espanha, 15 dias cá a descansar e 20 dias lá a trabalhar. Em Espanha chegava a atender 22 homens por noite”.

“Gostava de mudar de vida, gostava muito de abrir um negócio meu”

Foi em Espanha que teve a última recaída. “Bruna” saiu do clube onde trabalhava para comprar droga e foi nessa altura que percebeu que “se fosse apanhada ali, com droga e 1500 pesetas no bolso, seria deportada. Para além de todos os perigos que corria a ir buscar droga a pessoas tão perigosas. Foi nesse momento que eu percebi que ou deixava as drogas, ou acabava morta. E deixei”.

Essa relação com um homem mais velho não resultou e, mais tarde, “Bruna” conheceu alguém que a ajudou a mudar de vida. “Esse homem ajudou-me a abrir um negócio meu, uma loja de artesanato. Estive durante um ano na loja quando fiquei doente. Tive um derrame cerebral, provocado por um coágulo, e fui para o hospital. Estive 20 dias internada e, quando saí, a relação já não era a mesma e terminámos. Com isso, acabei por fechar a loja e voltei para a noite”, conta “Bruna” ao POSTAL.

Há cerca de 10 anos veio para o Algarve. Aqui, “Bruna” trabalhou em vários clubes noturnos, dependendo um pouco da sazonalidade. “Nem tudo correu bem no clube onde comecei a trabalhar aqui no Algarve” e esteve cerca de dois anos a trabalhar na rua. “Quando fui para a rua foi muito estranho, eu não sabia nem para onde levar os clientes. Numa casa ou num clube, nós cobramos um preço e damos cerca de 10 a 20 euros à casa pelo quarto. Ali eu não tinha quarto. Cobrava menos do que num clube (no clube o mínimo rondava os 60 euros e ali cobrava 50 euros), mas o dinheiro era todo para mim”.

“Bruna” conta que foram muitos os sustos que apanhou ao longo da vida. Foi “humilhada por clientes, chegaram a correr atrás de mim com uma caçadeira e obrigar-me a sair da propriedade pela porta do cão, nessa altura tive muito medo”. Hoje, voltou a trabalhar no clube onde estava, no Algarve. Mas é com a voz embargada que desabafa ao POSTAL que “gostava de mudar de vida, gostava muito de abrir um negócio meu, uma coisa que eu realmente gostasse”.

Objetivos do projeto As Madalenas, criado pelo MAPS (Foto D.R.)

(Andrea Camilo / Henrique Dias Freire)

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