Leitura da semana: Lealdades, de Delphine de Vigan

Leitura da semana: Lealdades, de Delphine de Vigan

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A rubrica Leitura da Semana é publicada semanalmente à terça-feira;
Paulo Serra é doutorado em Literatura na Universidade do Algarve e investigador do CLEPUL

Um retrato psicológico, negro, de como as pessoas vivem desencontradas na contemporaneidade e, mesmo em família ou quando estabelecem laços afectivos, a ponte que procuram estabelecer com aqueles que os cercam é insuficiente e imperfeita. Na relação entre professora e aluno, entre mãe e filho, entre colegas e amigos, entre marido e mulher, há sempre um fosso em que a pessoa está tão embrenhada nas suas próprias profundezas que quase não consegue tocar o outro, por vezes assombrada ainda pela infância, como é o caso de Hélène, e correndo o risco de projectar num aluno aquilo que sofreu na pele.

A narrativa reparte-se entre Hélène, a professora, Théo, o aluno, Mathis, o colega, e Cécile, a mãe de Mathis. Curiosamente, são apenas as mulheres, a professora e a mãe, que ganham voz no romance através do registo na primeira pessoa.

Delphine de Vigan é escritora, realizadora e argumentista (Fotos: D.R.)

Perpassa neste romance, publicado pela Gradiva, uma forte noção da contemporaneidade, até porque, como se afirma, a certa altura, o tempo da inocência chegou ao fim (p. 93). Théo imagina-se um participante vencedor de um reality show, de modo a transformar o trabalho em divertimento; as fotografias funcionam como mistificações ilusórias; o marido de Cécile revela-se um perfeito estranho quando ela descobre o seu avatar nas redes sociais e num blogue pessoal, em que ataca e contesta «tudo e mais alguma coisa, sem nunca assumir o teor das suas afirmações» (p. 147), de forma anónima, ambivalente ou extremista, sem nunca se dar a conhecer. Um mundo solitário e negro, em que uma criança de doze anos e meio encontra na bebida a única forma de salvação: «Contrariamente à maioria dos alimentos, o álcool não é digerido. Passa directamente do aparelho digestivo para os vasos sanguíneos. (…) É no cérebro que os efeitos se fazem sentir mais depressa. A ansiedade e o medo diminuem, e às vezes chegam mesmo a desaparecer. Dão lugar a uma espécie de vertigem ou excitação que pode durar várias horas.» (p. 107)

A capa do livro de Delphine de Vigan

Delphine de Vigan é escritora, realizadora e argumentista, com oito romances publicados em França, onde nasceu, e alguns adaptados ao cinema. É especialmente lida entre os mais jovens e detentora de prémios como o Prémio Elle, Fnac, Televisão Francesa, Goncourt e Renaudot.

(CM)

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