Maldita ou bendita confusão?

Maldita ou bendita confusão?

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A OPINIÃO de MARIA JOÃO NEVES Ph.D
Consultora Filosófica
filosofiamjn@gmail.com

O que acontece quando duvidamos sem cessar? Quando em certos dias pensamos A, noutros B, noutros ainda C. Pior um pouco, que acontece quando em certo momento pensamos A e no momento seguinte pensamos exactamente o oposto, não A; a seguir B, e logo após não B? A confusão toma conta de nós. É exasperante!

O problema reside em que a confusão não se dissipa por decreto. A vontade, mesmo que poderosa, resulta impotente quando de confusão se trata. Se compelidos a isso, podemos obrigar-nos a decidir, atirar uma moeda ou utilizar qualquer outro método de sorteio aleatório. Contudo, isso não significa que a confusão se tenha dissipado. Actos voluntariosos ou decisões precipitadas tomadas em estado de confusão podem ter consequências nefastas, sobretudo em assuntos em que não haja retorno.

Os filósofos Antoine Arnauld e Pierre Nicole alcançaram a notoriedade no meio intelectual setecentista ao serem co-autores do livro A Arte de Pensar, que foi considerado obra de referência no campo da lógica por mais de dois séculos. Nele se afirma, precisamente, que as propriedades básicas das ideias são a clareza e a confusão. A clareza de ideias é sinónimo de vivacidade; o seu oposto é a obscuridade. A confusão de ideias surge quando várias delas são conectadas por julgamentos falsos. Por sua vez, a confusão produz obscuridade. No extremo oposto à confusão de ideias está a distinção. As ideias oscilam nesta escala sendo, portanto, a clareza e a confusão uma questão de grau. Vejamos, “a ideia simples de dor, por exemplo, é uma ideia clara e distinta de um estado sensorial na mente, e a ideia da dor na mão é uma ideia composta e confusa de algo na mão que se parece exatamente com a dor. Sendo confusa, a ideia também é obscura, porque o que está na mão que se parece exatamente com a dor ‘não está claro para nós’.”

Descartes foi quem primeiro estabeleceu como critérios de evidência a clareza e a distinção

O filósofo René Descartes, no século XVI, foi quem primeiro estabeleceu como critérios de evidência a clareza e a distinção. Estes seriam, pois, os identificadores da verdade. Porém, sendo a dúvida e a confusão experiências incontornáveis da natureza humana Descartes conseguiu descobrir o seu lado positivo: se duvido é porque penso, penso logo existo. E é assim que a confusão da dúvida dá lugar à verdade apodíctica da existência!

Já Platão, no século IV a.c., na famosa “Alegoria da Caverna” descrita na República, nos mostrava como o caminho rumo à verdade implica estados de grande confusão. Recordemo-la de forma sintética: prisioneiros observam sombras de objectos projectadas no fundo de uma caverna, acreditando piamente que o que vêem é a realidade. Se alguém soltasse um deles e o forçasse a “voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objectos cujas sombras via outrora.”

Qualquer um de nós ficaria ofuscado ao passar, de repente, de um ambiente mais sombrio para um ambiente mais luminoso. É precisamente isto que sucede quando um estado acutilante de confusão se instala. A ofuscação é dolorosa, difícil de suster, de forma que tendemos a voltar para trás, a regressar à zona mais sombria onde nos sentíamos confortáveis. A confusão não é apenas cognitiva, existe também uma componente emocional.

Quando Platão nos fala do caminho ascendente que conduz da vida errónea das sombras, à saída da caverna onde se contempla a verdade solar, podemos perceber que este é um caminho que supõe muitos estados de ofuscação. O aumento de luminosidade requere sempre um tempo de habituação, por vezes demorado. Mas este tempo é doloroso. O incremento de luz magoa. Que fazer então?

A aceitação da confusão é o primeiro passo em direcção à clareza (Foto: D.R.)

A aceitação da confusão é o primeiro passo em direcção à clareza. É preciso parar. Não se pode caminhar sem ver. É preciso contrariar a vontade de regressar à zona de conforto, de andar para trás, e admitir ficar parado na zona inóspita sem saber quando é que os olhos se habituarão e se conseguirá progredir. É absolutamente necessário parar. Porém, há que parar com delicadeza. Este é o momento em que nos temos de encher de compaixão por nós próprios, em que temos de ter paciência para connosco, em que devemos tratar-nos com carinho. Embora o impulso primordial seja tentar escorraçar com raiva a confusão para nos livrarmos dela o mais rapidamente possível, devemos fazer precisamente o contrário. Convidar a confusão a sentar-se e oferecer-lhe um chá quente com bolachinhas. Agir com delicadeza ajuda a recuperar o bom senso, a mente flexibiliza-de e conseguirá abrir-se a novas possibilidades. E se experimentássemos olhar para a nossa confusão, sem raiva mas com curiosidade?

John Welwood, psicoterapeuta americano, afirma no su livro Alquimia do Amor o seguinte: “quando estamos no limite, muitas vezes sentimos ao mesmo tempo o desejo de expandir-nos para novos territórios, e o medo de fazê-lo. Ser gentil significa admitir ambos os lados daquilo que estamos a sentir, em vez de forçar-se a ir para a frente ou assustar-se até recuar. Isso ajuda-lo-á a relaxar, a permanecer presente e a ver o que acontece a seguir.” Experimentamos?

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Inscrições para o Café Filosófico: filosofiamjn@gmail.com

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de maio)

(CM)

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