Para a história dos estúdios fotográficos no Algarve: O Dias Fotógrafo de...

Para a história dos estúdios fotográficos no Algarve: O Dias Fotógrafo de Portimão

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Carlos Alberto Osório;
Docente do Ensino Secundário;
Mestre em Produção, Edição
e Comunicação de Conteúdos

Victorino da Fonseca Dias nasceu em 1874, em Sta. Marinha de Trevões (Viseu), e estabeleceu-se como fotógrafo em Vila Nova de Portimão nos primeiros anos do século XX, ficando conhecido como “Dias Fotógrafo”. Este pioneiro da fotografia de estúdio no Algarve a par de Samorrinha em Faro, Andrade de Tavira, Segurado em Lagos, Joaquim Brígida em Silves, Molarinho em Vila Real de Sto. António, para destacar os mais importantes, fixaram o negócio da fotografia que até então, e sobretudo nas regiões periféricas, era trabalho efetuado por fotógrafos excursionistas vindos de Espanha, de Lisboa ou do Porto, que se instalavam em pequenos “hotéis”, montavam cenários ou estúdios improvisados nas feiras.

Embora haja a indicação num cartão fotográfico “Photographia Dias Setúbal”, que pode levar-nos a admitir uma passagem pela cidade sadina nos primeiros anos da profissão, é garantido que se estabeleceu como fotógrafo, nos inícios do século XX, em Portimão, no Largo do Rossio. De acordo com um anúncio d’ O Portimonense, Dias informa os seus clientes que vai mudar do Largo do Colégio para o primeiro andar de um edifício, na rua Júdice Biker (espaço da atual estação dos CTT), onde passa a habitar e a trabalhar. Não obstante, é publicado em vários números da Alma Algarvia (1911) um outro anúncio no qual se refere a um atelier na rua José Libânio Gomes, o que abre a possibilidade de ter dois espaços abertos. No seu estúdio, para além dos retratos, também vende artigos fotográficos para amadores. A sua clientela era sobretudo constituída por famílias mais abastadas do Barlavento. Encarregava-se de fazer retratos e de fotografar diversas festividades sociais e familiares, tais como os casamentos, os nascimentos dos membros das ilustres famílias portimonenses, as batalhas de flores, jantares ou inaugurações.

Uma fotografia de estúdio de 1916 com os 11 elementos da equipa de futebol do Portimonense permite-nos hoje fazer um cálculo aproximado das amplas dimensões do seu novo estúdio. As várias referências que se fazem na publicidade dos jornais locais ao tipo e preços de papel platinado ou albuminado constitui, do ponto de vista das técnicas fotográficas, uma matéria interessante que nos ajuda a compreender as relações entre fotografia e sociedade. O fotógrafo acompanhava as tendências e as inovações e selecionava a sua clientela. O aparecimento desses novos papéis, com aspecto tão diferente operou uma pequena revolução nos gostos do público. Era sinal de prosperidade e de gosto requintado ter o seu retrato impresso em platina. Por essa razão, os profissionais ofereciam aos seus clientes a escolha da impressão em platina como um artigo de luxo.

Em 1913, decorre em Lisboa a Exposição Nacional das Artes Gráficas. Dias apresenta-se com 8 fotografias, pelas quais recebe um prémio não especificado. A referência a este prémio irá ser utilizada nos cartões fotográficos, como uma forma interessante de publicidade invulgar na época. Julião Quintinha na Alma Algarvia dava conta do prémio da seguinte forma: “Com a mais viva satisfação registamos hoje o brilhante sucesso que obteve na exposição de artes gráficas ultimamente realizada em Lisboa, o nosso prezado amigo e distinto fotógrafo Victorino da Fonseca Dias, um dos mais inteligentes fotógrafos desta província cujo mérito o jury da exposição acaba de consagrar com um honroso diploma e respectiva medalha. (…) Victorino da Fonseca Dias acaba de adquirir uma máquina do que há de melhor bem como alguns aparelhos indispensáveis no seu atelier, um dos melhores do Algarve, o que certamente concorrerá para o alargamento da sua já numerosa clientela”.

O I Congresso Regional Algarvio (Casino da Praia da Rocha, 1915) pôde ficar bem documentado nas originais comunicações e igualmente pela cobertura fotográfica que esteve a cargo do Dias. A Ilustração Portuguesa, com a qual colaborava habitualmente, publica alguns clichés. Supomos que outras imagens se encontrem na posse de colecionadores particulares ou dos descendentes da família Magalhães Barros. Mas já anos antes, aquela famosa revista semanal havia publicado nove clichés do autor sobre os encantos da Rocha. Num outro n.º de 1913, também podemos encontrar outras imagens das belezas naturais da famosa praia e uma batalha de flores no rio Arade. Várias destas fotos fazem parte de um carnet (em francês e uma nota final também em inglês) de 12 postais editado c. 1912 pela Papelaria “Artística do Algarve” de Silves, cuja finalidade era claramente a promoção turística internacional da Praia da Rocha. Dias surge igualmente como colaborador eventual da revista ABC. Encontramos três clichés por ocasião das festas em honra do bispo do Algarve, em 1920. Muitas outras imagens sem referência de autor e não publicadas na imprensa, dadas as suas características, levam-nos a admitir tratar-se de trabalhos seus, como por exemplo os clichés que ilustram as obras da contrução da ligação ferroviária Parchal-Lagos, as estivas do Provisório em Alvor ou a partida de Galeões da indústria conserveira.

No finais dos anos 20, Dias com 60 anos, vai perdendo a exclusividade de certo tipo de clientes e o prestígio técnico de outrora. Os constantes desenvolvimentos tecnológicos que a indústria da imagem anunciava, a necessidade de atualizações cada vez mais frequentes, a popularidade crescente da fotografia e a baixa significativa no preço das máquinas, acessórios e matéria-primas permitiu a ascensão das novas gerações de casas fotográficas. Em 1928, Fonseca Dias, que inaugurara uma nova loja de móveis, anuncia nos jornais a ampliação e melhoramentos, assim como a compra de um novo bilhar para o seu Café Peninsular. Pouco depois passa a administrar a Pensão Central, sendo também da sua responsabilidade o serviço de bufet do Pavilhão Avenida, espaço de festas de D. Cayetano Feu, a partir de 1930.

Ignoramos quando terá deixado definitivamente os negócios da fotografia e da restauração e mobiliário e dito adeus à cidade que o acolheu. Não tendo deixado descendência, foi viver para Lisboa com a sua mulher, onde faleceu a 13-11-1959.

(Artigo publicado no Caderno Cultura.Sul de junho)

(CM)

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