De energias e tesouros

De energias e tesouros

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A OPINIÃO de ANA AMORIM DIAS Escritora www.anaamorimdias.blogspot.com anamorimdias@gmail.com

É, invariavelmente, por volta das cinco e meia: desço, dou três puxadelas na corda de ligação do soprador e a gasolina de mistura começa a trabalhar a sua magia. Dez minutos mais tarde a avenida das pipas e todo o alpendre nascente estão sem folhas, limpinhos. Nessa altura já posso subir, tomar o meu banho, despachar-me e voltar para baixo.

E então um novo ritual: ligar a música, as cascatas de luz, trazer o pão quentinho, que o padeiro deixa lá ao fundo, e colocá-lo na grande cesta verde, nem muito abafado, nem demasiado exposto ao ar.

Nessa altura o presunto espreita-me e, por vezes, não lhe resisto: lasco-o com devoção e junto-lhe a mor tentação em forma de côdea de pão quente com um toque de manteiga.

Enquanto na cozinha já se ouvem as vozes que preparam o jantar, começam-me a chegar os meninos.

– Falta passar o pano nas mesas e verificar os cinzeiros da rua.

– Já estou a tratar disso…

– Abram também o resto dos toldos e preparem as mesas das reservas e a máquina dos copos…

Às vezes tenho tempo para parar e olhar à volta. Tempo para me encantar, outra vez como a primeira, com a beleza de tudo. Tempo para deixar que a incrível energia do espaço me atinja outra vez, como a activação de um incontestável super poder. Tempo para intuir os sorrisos orgulhosos e tão incrivelmente felizes dos fundadores que já só estão sem serem vistos.

Às vezes perguntam-me como é que é possível que aqui, atrás dos montes escondido, se encontre este surpreendente tesouro. Respondo que tal característica é a sua própria essência: é por estarem escondidos que os tesouros são tesouros… e é por terem guardadas em si, sem que se deixem ver, as soberbas energias de um clã.

(CM)

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